Mobilização Neural - Conceito Manipulativo
Embora há mais de um século se saiba que
lombalgias, lombociatalgias, cervicalgias e
cervicobraquialgias, entre outras desordens
músculo-esqueléticas apresentam origem neural, somente nos
últimos vinte anos a Fisioterapia começou a se interessar
mais profundamente na busca de tratamentos eficazes para
esses distúrbios. Até então o foco de atenção era centrado
no atendimento de pacientes com condições neurológicas
provocadas por danos cerebrais, como o AVC, ou em lesados
medulares ou com traumatismo craniano Esse interesse teve
início em 1997 com o fisioterapeuta australiano, dr. Robert
Elvey, ao iniciar o desenvolvimento de pesquisas em relação
aos problemas neurais.
“No fundo, o conceito de mobilização neural é bastante
simples”, garante o dr. Hall. “Estamos abordando o sistema
nervoso periférico, basicamente as raízes nervosas, até a
sua enervação na periferia. O paciente pode apresentar dois
tipos de problemas neurais. O primeiro é quando o nervo é
danificado por compressão ou por um trauma direto,
provocando até uma secção. A compressão é o problema menos
comum do que a secção. O que mais observamos é a inflamação
neural, trazendo como conseqüência a neurite”, relata o dr.
Hall.
“Esta inflamação pode ter várias origens. Uma delas, por
microtraumas repetitivos. Um exemplo típico é uma pessoa que
trabalha por longos períodos de tempo com computador, com
uma postura inadequada em sua estação de trabalho com má
ergonomia, provocando dores nos braços ou na região
cervical. Ocorrerá uma inflamação das raízes nervosas, que
acabam desenvolvendo um processo inflamatório. O nervo se
torna muito sensível e se a pessoa fizer qualquer tipo de
alongamento, ele será muito dolorido e irá agravar o
problema”.
O dr. Toby Hall fez uma pesquisa com um número
representativo de pacientes com dores crônicas nos ombros e
observou que um terço das dores tinha origem neural.
“Analisando pacientes que encontramos no Brasil, notamos que
também um terço deles apresentava quadros de origem neural.
É por isso que o fisioterapeuta brasileiro, como de qualquer
outro lugar do mundo, precisa saber diagnosticar e tratar o
problema neural corretamente”.
O dr. Hall enfatiza a necessidade do fisioterapeuta efetuar
o diagnóstico funcional. “As condições desse paciente
poderão ser melhoradas precocemente se esse paciente for
tratado de forma apropriada. Se não for elaborado um
diagnóstico correto, supondo, por exemplo, que o problema é
de origem articular ou muscular, quando na verdade é neu-ral,
estaremos agravando ainda mais a situação. A utilização de
condutas inadequadas, como por exemplo o alongamento, só
complicará o quadro do paciente”.
“O estudo que fizemos com vários pacientes com longas
histórias de dor – de até 20 anos – sem que se conseguisse
fazer um diagnóstico correto porque os profissionais
envolvidos não haviam se aprofundado nos problemas neurais,
é muito sintomático. Recentemente, aqui mesmo no Brasil,
conhecemos uma pessoa com uma história de dez anos de dor no
braço, que a levou a duas cirurgias do túnel do carpo em
razão de se acreditar ser essa a origem do problema. No
entanto, constatamos a inapropriação dessa cirurgia. Os
testes com eletromiógrafo, realizados por três vezes,
apresentaram resultado normal, mas quando avaliamos a
paciente, verificando se apresentava problemas inflamatórios
ou de sensibilização, ficou claro que o problema tinha
origem neural e, já no primeiro atendimento, apresentou
sensível melhora”.
Como tratar? - “Basicamente mediante indicação de terapias
manipulativas”, propõe o dr. Hall. “Antes de mais nada é
essencial o diagnóstico funcional, realizado pelo
fisioterapeuta.. O diagnóstico correto só é obtido através
de uma avaliação criteriosa, que deve passar por pelo menos
sete testes: avaliação postural, teste de movimento ativo,
teste de movimento passivo, testes provocativos neurais,
palpação, palpação da coluna e exame neurológico. Se
concluímos que a origem do problema é por compressão ou
danificação do nervo, utilizamos técnicas específicas para
descomprimir esse nervo, para que recupere sua função
normal. Se o diagnóstico apontou para inflamação ou
sensibilização do nervo, utilizamos recursos de
desensibilização, variáveis de acordo com cada paciente.
Alguns pacientes apresentam problemas mais severos do que
outros e, em conseqüência, cria-se o tratamento adequado. A
manipulação também é adotada em função do nervo afetado. Por
exemplo, no nervo superior, poderá estar afetado o radial, o
mediano ou algum outro. Detectar exatamente qual é o nervo
afetado é fundamental para o tratamento correto”.
“O tratamento é progressivo”, lembra o dr. Hall. “Não se
cura o paciente com apenas um atendimento. O tempo de
tratamento varia de duas semanas, para casos mais suaves,
até três meses. E o tratamento é basicamente sempre com
terapia manual.em sua fase inicial. Quando o paciente inicia
a apresentação de sinais de melhora, soma-se a
cinesioterapia, porque é muito importante que o paciente
repita em sua casa o mesmo trabalho que é efetuado na
clínica”.
“Algumas vezes temos pacientes com problemas não apenas
neurais mas também em outras estruturas. Um bom exemplo é o
ombro doloroso, no qual o paciente apresenta dor por um
longo tempo e não consegue mover o braço de forma
apropriada. Secundariamente ao problema neural, ele
apresenta problemas restritivos na articulação e, além
disso, seus músculos tornam-se disfuncionais. A seqüência de
tratamento deve ser a do nervo, em primeiro lugar, para em
seguida, com os resultados de melhora, trabalhar com a
articulação e o músculo. Muitos pacientes, só com o
tratamento do problema neural, apresentam melhora sensível
em seu estado geral”, resume o fisioterapeuta..
Para o dr. Toby Hall, é estimulante verificar que cada vez
mais os fisioterapeutas começam a entender o conceito de
mobilização neural, lembrando de pacientes que tiveram no
passado e que apresentavam quadros que poderiam ser
associados a problemas neurais, mas que deixaram de ser
assim tratados.
Primeiro contato. O dr. Toby Hall relata a situação da
fisioterapia na Austrália. “Somos profissionais de primeiro
contato, não necessitamos de encaminhamento prévio de outro
profissional, para que se possa efetuar o atendimento e ter
o ressarcimento dos programas de saúde” Ele cita o seu local
de trabalho, em Perth, onde 80% dos pacientes por ele
atendido são de primeiro contato. Hall ressalva, no entanto,
que esse percentual pode variar, dependendo do local e da
clínica. Em seu país, 40%. dos australianos utilizam-se de
planos particulares de saúde e as empresas pagam diretamente
ao fisioterapeuta, embora nem sempre haja a cobertura
integral de todos os atendimentos e de todos os
procedimentos, esclarece.
“Se um paciente procura o fisioterapeuta encaminhado por um
médico e chega com um diagnóstico clínico (por exemplo, uma
lombociatalgia com uma ressonância magnética indicando uma
protusão discal), é o fisioterapeuta que fará o diagnóstico
funcional dessa lombociatalgia, para definir as condutas a
serem adotadas”. Ele cita casos em que pacientes foram
tratados pelo conceito da mobilização neural, aliviando e ao
final eliminando as dores que sentiam, embora as
ressonâncias solicitadas ao final do tratamento continuassem
a indicar a mesma protusão e com a mesma dimensão.
“Muitos pacientes apresentam hérnia discal sem nenhum
sintoma de dor. Mesmo assim o atendimento fisioterapêutico é
fundamental, porque a dor que o paciente apresenta pode não
ter relacionamento com o achado laboratorial. A ressonância
não avalia o movimento, não é um teste funcional. Quem sabe
avaliar o movimento é o fisioterapeuta. O fisioterapeuta
deve verificar se o que encontrou em sua avaliação está
coincidindo com o indicado no resultado clínico ou
laboratorial. É muito importante tratar o paciente e não a
ressonância...”, conclui o fisioterapeuta.
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